Por: Dr. José Ramos - Psicólogo
Enquadramento
A Perturbação de Jogo é classificada no DSM-5 da American Psychiatric Association (APA, 2013) no grupo das perturbações aditivas, constituindo-se como um comportamento aditivo não relacionado com o uso de substâncias psicoativas. Caracteriza-se por um padrão persistente, recorrente e desadaptativo de comportamento de jogo, associado a prejuízo clínico significativo, operacionalizado através de critérios que contemplam dimensões de preocupação, tolerância, abstinência, perda de controlo, fuga, necessidade de resgate, dissimulação e comprometimento funcional.
Do ponto de vista desenvolvimental, trata-se de uma perturbação com início frequente na adolescência, período crítico de vulnerabilidade marcado por imaturidade neurocognitiva – particularmente ao nível do córtex pré-frontal, com implicações no controlo inibitório, na tomada de decisão e na regulação emocional (Dowling et al., 2017). A consolidação da perturbação ocorre tipicamente na transição para a idade adulta, com impacto multidimensional nos domínios psicopatológico, social, familiar, laboral e financeiro (Emond et al., 2022).
Dados Epidemiológicos
Os dados produzidos pelo ICAD situam Portugal num padrão epidemiológico consonante com as tendências europeias. De acordo com o Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral de 2022 (ICAD, 2023), aproximadamente 56% da população portuguesa refere ter participado em jogos a dinheiro ao longo da vida – valor acima dos 2016/2017, embora abaixo dos 66% observados em 2012. Aproximadamente 1,3% da população portuguesa apresenta indicadores de risco de jogo problemático e 0,6% cumpre critérios compatíveis com esta perturbação aditiva em fase de dependência. Estes valores assumem relevância significativa quando analisados em subgrupos de maior vulnerabilidade, nomeadamente jovens adultos e estudantes universitários, onde as prevalências de comportamentos de risco tendem a ser substancialmente superiores (Gavriel-Fried et al., 2024).
No que respeita à população jovem, os dados do Estudo sobre os Comportamentos de Consumo de Álcool, Tabaco, Drogas e outros Comportamentos Aditivos e Dependências – Portugal 2024 (ECATD-CAD, 2025), realizado com uma amostra representativa de 11.083 alunos entre os 13 e os 18 anos, indicam que 18% jogaram a dinheiro no último ano, com destaque para lotarias, apostas desportivas e jogos de cartas. O relatório ESPAD 2024 acrescenta que 64% dos jovens portugueses entre os 15 e os 16 anos já realizou apostas desportivas online (10% superior à média europeia, ESPAD, 2024), evidenciando uma iniciação precoce e a particular exposição da população jovem portuguesa ao jogo digital. Adicionalmente, dados do Dia da Defesa Nacional de 2024 indicam que 16% dos jovens com 18 anos de idade já apostam online (ICAD, 2026). A nível internacional a literatura aponta para prevalências de jogo problemático em adolescentes entre 0,2% e 12%, sendo que o início precoce poderá estar correlacionado com uma maior severidade desta perturbação aditiva e com maior carga psicopatológica ao longo do ciclo de vida (Floros, 2018; Calado & Griffiths, 2016).
Comorbilidade e Mecanismos de Manutenção da Perturbação de Jogo
A evidência internacional demonstra associações robustas entre a Perturbação de Jogo e perturbações do humor, perturbações de ansiedade, perturbações por uso de substâncias, com particular destaque para o consumo de álcool e perturbações da personalidade. Uma meta-análise de Lorains et al. (2011) identificou prevalências de comorbilidade psiquiátrica superiores a 96% em amostras clínicas com jogo problemático, o que coloca esta perturbação entre as de maior complexidade diagnóstica e terapêutica no espetro aditivo. Os dados do ICAD confirmam esta associação no contexto português, evidenciando que indivíduos com comportamentos de jogo problemático apresentam maior probabilidade de reportar sofrimento psicológico significativo e consumo concomitante de substâncias psicoativas (ICAD, 2023). Mais recentemente, Sharma e Weinstein (2023) sublinham que a Perturbação de Jogo apresenta padrões neurobiológicos e psicopatológicos sobreponíveis aos das perturbações por uso de substâncias, reforçando a necessidade de abordagens de avaliação e intervenção integradas.
A relação entre jogo e psicopatologia é frequentemente bidirecional: o comportamento de jogo pode funcionar simultaneamente como fator precipitante e como estratégia disfuncional de regulação emocional (Gavriel-Fried et al., 2024). Do ponto de vista neuropsicológico, destacam-se como mecanismos centrais na manutenção da perturbação a impulsividade, a disfunção dos circuitos dopaminérgicos de recompensa e as distorções cognitivas, nomeadamente, a ilusão de controlo, a falácia do jogador e o enviesamento da memória seletiva de ganhos (Sharma & Weinstein, 2023).
O início precoce de exposição a situações de jogo associa-se a níveis de desorganização funcional mais severos ao longo do ciclo de vida, com interferência nas tarefas desenvolvimentais essenciais como a consolidação de competências académicas, profissionais e vinculativas (Dowling et al., 2017). Esta evidência reforça a pertinência clínica de uma avaliação sistemática da história de jogo em adolescentes e jovens adultos que recorrem a serviços de saúde.
Implicações Funcionais e Sistémicas
A Perturbação de Jogo acarreta consequências cumulativas que se estendem além da dimensão individual. A nível social, observa-se isolamento progressivo, diminuição das redes de suporte e comprometimento do funcionamento académico e laboral, incluindo absentismo, desemprego e precariedade (ICAD, 2023). A nível familiar, descrevem-se padrões de conflito interpessoal, quebra de confiança, deterioração de vínculos afetivos e comunicacionais, com risco de evolução para dinâmicas de codependência ou rutura relacional, sendo que, contextos familiares disfuncionais constituem simultaneamente fatores de risco para o desenvolvimento da perturbação, reforçando a pertinência de abordagens sistémicas na prevenção e intervenção (Dowling et al., 2017). A nível financeiro, os indivíduos com esta perturbação apresentam maior probabilidade de endividamento significativo e de dificuldades económicas persistentes, particularmente associadas a jogos de acesso e recompensa imediatos, cujas características potenciam comportamentos de repetição e progressão das perdas financeiras (ICAD, 2023).
A expressão clínica desta perturbação na transição para a idade adulta (18-29 anos) é particularmente severa Emond et al. (2022). Uma revisão sistemática de estudos longitudinais, documentam que este período está associado a maior intensificação do comportamento de jogo, a níveis mais elevados de sintomatologia ansiosa e depressiva, e a uma elevada taxa de comorbilidade.
Métodos de Intervenção
A resposta clínica que desenvolvemos estrutura-se em duas modalidades complementares, integradas numa abordagem centrada no âmbito da Psiquiatria e da Psicologia e baseada na evidência científica. A intervenção psicoterapêutica individual centra-se na avaliação psicopatológica, na motivação para a mudança comportamental, na reestruturação cognitiva das distorções associadas ao jogo, na reestruturação funcional, no trabalho de regulação emocional e no desenvolvimento de estratégias de coping adaptativos. A formulação de caso orienta a intervenção para os fatores de manutenção específicos de cada utente, com atenção particular à comorbilidade presente, em linha com as recomendações de Sharma e Weinstein (2023) para uma intervenção integrada nas perturbações aditivas comportamentais. Concluída a estabilização psicopatológica e a consolidação da ausência de jogos a dinheiro a intervenção grupal constitui um contexto terapêutico fundamental ao nível do follow-up, favorecendo a psicoeducação, a confrontação adaptativa das distorções cognitivas em contexto interpessoal, a redução do isolamento e do estigma associado, e o fortalecimento da rede de suporte. O formato grupal potencia igualmente a continuidade da motivação para a mudança comportamental e a adesão terapêutica a médio e longo prazo, dimensões particularmente relevantes numa perturbação marcada pela ambivalência e pela dissimulação do comportamento. A intervenção precoce, integrada e sensível à comorbilidade apresenta-se como a abordagem com maior eficácia na modificação das trajetórias clínicas e na recuperação do funcionamento global (Calado & Griffiths, 2016; Emond et al., 2022).
Referências Bibliográficas
APA (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5.ª ed.). American Psychiatric Association.
Calado, F., & Griffiths, M. D. (2016). Problem gambling worldwide: An update and systematic review of empirical research (2000–2015). Journal of Behavioral Addictions, 5(4), 592-613.
Dowling, N. A., et al. (2017). Early risk and protective factors for problem gambling: A systematic review and meta-analysis of longitudinal studies. Clinical Psychology Review, 51, 109-124.
ECATD-CAD (2025). Estudo sobre os comportamentos de consumo de álcool, tabaco, drogas e outros comportamentos aditivos e dependências - Portugal 2024. ICAD.
Emond, A., Griffiths, M. D., & Hollén, L. (2022). Problem gambling in early adulthood: A systematic review of longitudinal studies. Journal of Gambling Studies, 38, 1021–1045.
ESPAD (2024). Key findings from the 2024 European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs. EUDA.
Floros, G. D. (2018). Gambling disorder in adolescents: Prevalence, new developments, and treatment challenges. Adolescent Health, Medicine and Therapeutics, 9, 43–51.
Gavriel-Fried, B., Rabayov, D., & Aderka, I. M. (2024). Gambling severity and mental health among emerging adults. International Journal of Environmental Research and Public Health, 21(6), 702.
ICAD (2023). Relatório anual 2022: Situação do país em matéria de comportamentos aditivos e dependências. Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências.
ICAD (2026). Audição parlamentar — Comissão de Economia e Coesão Territorial, janeiro de 2026. Joana Teixeira, presidente do ICAD.
Lorains, F. K., Cowlishaw, S., & Thomas, S. A. (2011). Prevalence of comorbid disorders in problem and pathological gambling: Systematic review and meta-analysis. Addiction, 106(3), 490–498.
Sharma, R., & Weinstein, A. (2023). Behavioral addictions: Gambling disorder and its comorbidities. Frontiers in Psychiatry, 14, 1198024.